"O homem que mordeu o cão
(pela pertinência relativamente ao estudo dos processos de selecção e hierarquização na produção das notícias, aqui se transcreve o editorial de hoje do director interino do Diário de Notícias)
A frase é conhecida e tem servido de exemplo, pelos bons e pelos maus motivos: «Não é notícia um cão morder um homem; mas se um homem morder um cão isso é notícia». Com esta frase se explica, por vezes, aos estagiários de jornalismo os critérios da escolha do noticiável. Noticiável é o que é novo, surpreendente, que foge à habitualidade. E isto vale para o que acontece, o que se opina, o que espelha, o que é contraditório, o que indigna, o que dá prazer e o que comove - afinal para que um jornal seja o espelho de uma sociedade viva. Um jornal é as pessoas, na sua diversidade, nas suas ânsias, nas suas esperanças, nos seus costumes, culturas, modos e linguagens. Este é o lado bom da utilização da frase-exemplo. Mas há o outro lado. E esse outro está na pergunta que os jornalistas e os media devem, mais e mais, colocar a si próprios e aos leitores: será que nos estamos a aproximar ou a afastar das pessoas? Será que, ao privilegiarmos o surpreendente pelo surpreendente, não tendemos a criar uma sociedade em que os valores e as prioridades principais se confundem com o supérfluo, a essência das coisas com a espuma dos dias? Creio ser chegado o momento de jornalistas e de outros actores reflectirem sobre o modo como servimos o leitor e a comunidade. Confesso que, ao assumir a responsabilidade de servir este jornal, a sua história e os seus leitores, muitas destas perguntas afloraram ao meu cérebro. Sei ser importante noticiar o facto inabitual de «um homem morder um cão». Mas, de tanto repetirmos a receita - e falo dos media em geral -, será que estamos a respeitar as pessoas, na sua necessidade e vontade de viver habitualmente? Será que, tudo somado, notícia a notícia, edição a edição, reflectimos o país real ou um país virtual - visto sobretudo pelo que corre mal, pelo que não alcançamos? Estaremos, por vezes, a contribuir para não nos amarmos como indivíduos, como comunidade? Será que nada temos a ver com a questão da auto-estima e da auto-confiança dos portugueses? Que pensarão os leitores de tudo isto? Quererão eles ajudar-nos a reflectir?"
JOSÉ MANUEL BARROSO

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