domingo, outubro 24, 2004

Elementos para a análise da evolução
das concepções e práticas do jornalismo

[TEXTO 1]

Sobre o jornalismo séc XVIII-XIX

"Todos estes papeis eram escaços de noticias do reino; e se falavam de casamentos, obitos ou despachos, era só de gente graúda. Para se conhecer o que era o noticiario d'aqelles tempos, basta a transcripção que vamos fazer.O terramoto de 1755 succedeu a um sabbado. N'esse tempo a Gazeta saía ás quintas feiras. Na immediata á espantosa catastrophe, a folha publicou-se pontualmente, e no fim dizia o seguinte:

"Lisboa, 6 de novembro de 1755. O dia primeiro do corrente ficará memoravel a todos os seculos, pelos terremotos e incendios que arruinaram uma grande parte d'esta cidade; mas tem havido a felicidade de se acharem nas ruinas os cofres da fazenda real e da maior palie dos particulares."

Mais nada!Hoje, quando arde um predio da baixa, e morre algum bombeiro, no dia seguinte o noticiario de todos os jornaes é (?) como se ardesse Troya! Não se lê outra coisa; é um acontecimento memoravel.Arrazou-se quasi toda Lisboa; morreram sessenta mil almas; estão fumegando os seus melhores templos e palacios incendiados; ainda os gritos de misericordia estão ferindo os ares; o terror paira ainda sobre a cidade; e a Gazeta de 1755 cifra todo este quadro em seis linhas de noticiario!?

Silva Túlio
Cit. por Alfredo Cunha, in "O Diário de Notícias - A Sua Fundação e os Seus Fundadores", Lisboa, 1914


[TEXTO 2]

"(...)Pra ir de Lisboa ao Porto
Seis dias em mala-posta
São precisos e que perigos
O que lá vai não arrosta!

Pra fazer esse trajecto
Hoje em caminho de ferro,
Sem perigos, eu necessito
De seis horas se não erro
(...)

Uma nova da Austrália
Que venha pelo correio
Gasta em chegar a Lisboa
Talvês mais que mês e meio!

Se porém pelo telégrafo
A mesma for enviada
Em menos que um segundo
Será ela cá chegada! (...)

Mário de Sá-Carneiro, 1907
in Poemas Completos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1996, pp. 217-218


[TEXTO 3]

"Diário de Notícias", nº1, 1865:

[Este novo jornal propõe-se] "interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e compreensível a todas as inteligências (...). Eliminando o artigo de fundo, não discute política, nem sustenta polémica. Regista com a possível verdade todos os acontecimentos, deixando ao leitor, quaisquer que sejam os seus princípios, o comentá-los a seu sabor".

[TEXTO 4]

"Não nos furtamos a entrar em qualquer conversação urbana, decorosa e util; ao que nós fugimos systematicamente é ás polemicas desvairadas, insultuosas e inuteis, que offendem ás vezes a moral e o bom senso, aborrecem os leitores, e são uma das causas principaes da decadencia da imprensa politica, e da indifferença com que, segundo já vimos escripto, o publico a olha por vezes; a essas e a tudo quanto n'esse genero se filia, negamos desde muito absolutamente as nossas columnas, fechando-lhe até as portas da administração, embora com damno dos legitimos interesses da empreza."

Diário de Notícias, 28 de Setembro de 1878

[TEXTO 5]

?A imprensa, sendo, como é, a palavra organizada em instituição, tornada eco da multidão anónima, obscura, desvalida, paciente, irresoluta e murmurante, servindo, com a sua voz, de válvula de segurança providencial, e um grande bem, apesar de todos os defeitos que queiram encontrar-lhe e de todas as manchas que lhe possam ser notadas. [?] O jornalista é o factor subjectivo e pessoal, moral e responsável do exercício da imprensa. De coragem, independência e civismo deve ser formado o seu carácter: de penetração, lucidez e imparcialidade feito o seu critério; de talento, entusiasmo e amor formada a sua alma, votada a todas as concepções mais elevadas da arte e da beleza, na justiça, na verdade e no bem?.

Alberto Bessa (1904). O jornalismo. Esboço histórico da sua origem e desenvolvimento até aos nossos dias. Lisboa: Viúva Tavares Cardoso