terça-feira, maio 13, 2003

Mais um texto de Estrela Serrano, provedora do leitor do Diário de Notícias, que fica como um documento importante para compreender melhor as complexas relações entre jornalistas e fontes e entre os jornais e os seus leitores:

Dois pesos e duas medidas
Estrela Serrano
Diário de Notícias, 12.05.2003

Um dos factores que mais penalizam um jornal é ser desmentido publicamente. Por isso, os jornalistas oferecem, em geral, grande resistência à publicação de desmentidos e, quando o fazem, raramente lhes concedem relevo idêntico ao das notícias que lhes deram origem.

As pessoas e instituições que se sentem vítimas de notícias incorrectas optam, geralmente, por um processo mais informal que o «direito de resposta», dirigindo-se ao director do jornal para a devida correcção. O DN costuma publicar essas cartas na secção dos leitores Meu Caro DN, fazendo-as acompanhar de uma Nota da Redacção, onde quase sempre diz que «mantém a notícia» ou «a confiança nas fontes», raramente dando razão aos leitores.

Contudo, nem sempre isso sucede. Vejamos um caso e comparemo-lo com outro.

No passado dia 28 de Fevereiro, o DN publicou, nas páginas de Opinião, um texto do bastonário da Ordem dos Advogados intitulado Aviso à navegação. Não se tratava, porém, de um mero artigo de opinião. Era, antes, um texto em que o bastonário desmentia nada mais que três manchetes e um artigo envolvendo a instituição a que preside, publicados no DN no espaço de duas semanas. Estava-se, então, em plena discussão do «segredo de justiça», a propósito dos casos de pedofilia que, nessa altura, dominavam o noticiário nacional.

Nesse texto, de página inteira, o bastonário pedia «acolhimento» aos seus «amigos do DN», para «dar alguns esclarecimentos», uma vez que, segundo dizia, o DN publicara «informações importantes» mas «algumas delas não totalmente correctas». Após contrariar essas informações, o bastonário concluía que jornais «respeitados e credíveis como o DN» acabam por «ser vítimas da sua boa-fé ao acreditarem em 'fontes' que se escondem rastejando em gabinetes de manipulação» e lembrava que «ornais e jornalistas sérios não revelam as suas 'fontes', mas sabem aprender à sua custa e provavelmente não voltarão a acreditar nelas».

Apesar da gravidade da situação _ é inaceitável que, num jornal de referência, tantas notícias sejam desmentidas num período tão curto _ não houve, nesse dia nem nos seguintes, qualquer reacção do DN, quer da direcção, quer dos autores das notícias em causa. A provedora pediu ao director do jornal uma reacção ao sucedido, tendo obtido o seguinte comentário: «Todas as críticas construtivas _ como é o caso da que faz o dr. José Miguel Júdice _ merecem ser ponderadas. É óbvio que procuramos que cada erro seja uma lição de futuro.»

Independentemente do conteúdo das notícias que provocaram a reacção do bastonário, este caso permite duas constatações: em primeiro lugar, constitui um tratamento de excepção publicar um desmentido (como era de facto, o texto do bastonário) com o formato de artigo de opinião (e não na secção de cartas para onde vai a maior parte dos desmentidos). Em segundo lugar, ao contrário do que costuma fazer, o DN manteve-se publicamente em silêncio, só agora admitindo que se tratou de «erro».

O DN não quis, pois, pôr em causa a versão do bastonário _ uma fonte de indiscutível importância _ o que poderia acontecer se afirmasse que mantinha as notícias que ele corrigiu. Mas, por outro lado, também não assumiu publicamente, nessa altura, ter sido «manipulado» pelas «fontes» (não identificadas) que lhe forneceram as informações (pelos vistos, falsas), o que se compreende.

É, contudo, ao nível da transparência perante os leitores que a atitude do DN surge como mais frágil. De facto, os leitores ficaram sem perceber como foi possível publicar, para mais como tema de capa, uma série de notícias que depois reconhece terem resultado de «erro». Um esclarecimento ter-se-ia imposto.

Vale a pena comparar, agora, a atitude do DN neste caso e noutro mais recente mas menos mediático.

No passado dia 30 de Abril, a manchete do DN dizia: Suspeita de corrupção no turismo algarvio. No interior, citando «fonte ligada ao processo», o jornal afirmava que «o financiamento de campanhas eleitorais do PS poderá ser uma das causas das investigações efectuadas» pela Polícia Judiciária.

No dia seguinte, na secção de cartas dos leitores, surgia um desmentido assinado pelo «responsável do PS/Algarve». Desta vez, uma Nota de Redacção com a frase «O DN mantém as afirmações feitas na notícia» acompanhava a carta daquele «responsável».

Estes casos são paradigmáticos, por mostrarem como na relação entre fontes e jornalistas se usam, por vezes, dois pesos e duas medidas.

No primeiro caso, o DN considerou que ambas as fontes (o bastonário e as fontes não identificadas) eram demasiado «valiosas» para serem publicamente afrontadas. No último, só as de um lado interessaram ao DN, por sinal as não identificadas, o que significa que entre a palavra de um dirigente partidário pouco conhecido, de uma estrutura regional, e uma fonte que escolheu o anonimato, o DN acreditou nesta. É caso para dizer que a credibilidade da «classe política» anda, de facto, muito por baixo.



Bloco-Notas

UMA VELHA QUESTÂO

Existe uma velha questão do jornalismo, que consiste em saber «quem instrumentaliza quem». Os jornalistas dificilmente reconhecem ser objecto de instrumentalização, embora saibam que uma fonte é sempre parte interessada. Mas, como não há jornalismo sem fontes, ambas as partes procuram conciliar os seus interesses, de modo a que os objectivos de cada uma possam ser acautelados. Sendo certo que uma das «qualidades» mais apreciadas num jornalista é a sua «carteira de contactos», facilmente se compreende que só excepcionalmente ele queira colocar em risco a sua relação com fontes «bem colocadas». É, por outro lado, um dado inquestionável que, por detrás de uma «grande» notícia está sempre uma fonte «bem informada». O caso mais paradigmático do jornalismo de investigação _ o Watergate _ não teria existido sem o «Garganta Funda», embora não deva menosprezar-se o trabalho dos jornalistas que, nesse e noutros casos, souberam chegar a tais fontes e levá-las a confiar em si.

ELEMENTOS EM DESUSO

As teorias da notícia dizem que a identificação e a contrastação das fontes constituem atributos de rigor e de objectividade. Contudo, basta ler as notícias, por exemplo da política, ou da justiça, para verificar como esses atributos caíram em desuso. De facto, no jornalismo praticado actualmente, as fontes são quase sempre omitidas, mesmo quando as afirmações que lhes são atribuídas surgem com aspas. Mas, também noutras áreas é frequente a omissão da origem da informação como, por exemplo, em relação às fontes em que se baseiam certos «perfis» de personalidades internacionais apresentadas nos jornais, muito embora se trate de um tipo de informação que, geralmente, não provoca polémica.

UM BOM EXEMPLO

Vale a pena referir, a esse propósito, a atitude do jornalista Pedro Rolo Duarte, director do DNa, na sua crónica de 26 de Abril, ao escrever, a propósito das referências à autora da fotografia da capa da revista The New Yorker, Ana Juan: «Eu sei tudo isto, porque existe a Internet, não é cultura adquirida, é cultura alugada pela curiosidade de quem se impressiona com esta capa de revista...» A citação da origem da informação devia constituir um procedimento natural, mas, como se tornou rara, merece referência.

TERRA DE NINGUÉM

Existem várias razões susceptíveis de explicar a prática, crescente, de citar e divulgar informação cuja origem se omite. Uma delas é o recurso, cada vez mais frequente, à Internet _ que se tornou uma espécie de «terra de ninguém» _ onde se vai buscar informação sem o cuidado de citar a autoria e a «morada» onde se pode consultar. Essa prática é, por exemplo, fortemente punida nos meios académicos, não se compreendendo que os jornalistas ignorem o dever de citar as fontes que consultam, quer para notícias «sérias», quer para notícias «leves».