segunda-feira, maio 26, 2003

Um texto importante para compreender os processos de recepção da notícia e, de forma mais vasta, a relação entre o jornalismo e a sociedade:

LA RECEPCIÓN DE LA NOTICIA
Eva Aladro Vico
Cuadernos de Información y Comunicación, n.2

Um resumo:
"La noticia es un mensaje con una tensión cognitiva particular que resulta de la combinación de formas implícitas y explícitas de dos tipos de información, la información previamente conocida y la información desconocida. Los medios de información social (prensa, radio, y televisión ) utilizan sus características técnicas específicas para proponer al lector operaciones cognitivas de gran complejidad como la simultaneidad del análisis y la síntesis, y la rememoración y la innovación de información simultáneas. La lectura y el seguimiento de las noticias en los diversos medios de comunicación constituye una actividad cognitiva compleja que por un lado refuerza la dinámica de producción noticiosa y por otro constituye, como actividad interpersonal, una actividad reflexiva cuya finalidad es favorecer la propia continuidad de la práctica de la lectura de las noticias".

quinta-feira, maio 22, 2003

Recordamos que, de acordo com o Plano de Avaliação da nossa disciplina, vão realizar-se, nos dias 11 e 12 de Junho, as provas orais. Para procederem à inscrição, deverão assinar as listas (na aula, ou dirigindo-se ao Delegado de turma). Posteriormente, publicaremos uma lista com a indicação da hora de cada prova. A hora da prova poderá ser alterada, mediante a "troca directa" entre colegas.
Sandra Marinho

quarta-feira, maio 21, 2003

No último módulo da nossa disciplina, estamos agora a abordar o problema das audiências e a sua relação com a actividade jornalística. A compreensão deste aspecto supõe que se esclareça, em primeiro lugar, o que se entende comummente por audiência e em que é que este conceito se distingue, por exemplo, dos conceitos de público ou de massa (há, a este respeito, no capítulo dedicado à audiência do livro de D. McQuail "Mass Communication Theory-An Introduction", prestes a ser publicado pela Gulbenkian na versão portuguesa, algumas páginas interessantes sobre este ponto).
Outros aspectos a considerar:
- A relação das práticas mediáticas com o conjunto das práticas culturais (há um livro de Gilles Pronovost especificamente sobre isto);
- Fenómenos e tendências que se observam na última década (multiplicação das ofertas, fragamentação dos públicos...)
- As dimensões da passividade e da actividade dos públicos e factores condicionantes;
- A audiência como mercado, como conjunto de consumidores potenciais e efectivos e a importância da medição;
- Direitos do "consumidor" (dos media)
- Direitos de resposta (art.24 e ss. da Lei de Imprensa), de rectificação, de proposta, protesto e aplauso.


Dois documentos que o Público trouxe, já em 2002:

Como São Medidas as Audiências em Portugal?
PÚBLICO, 13 de Maio de 2002

Em Portugal, o sistema em uso chama-se Audipanel e o serviço é prestado pela Marktest Audimetria. As audiências são estimadas a partir de uma amostra teórica de 850 lares (painel) que representam o comportamento televisivo de 8.972.434 indivíduos com quatro ou mais anos, residentes no continente - as regiões autónomas não são abrangidas pela medição. Em cada um dos lares do painel, todos os aparelhos de televisão fixos, ou com baixo grau de mobilidade, utilizados pelo menos uma vez por semana, gravadores de vídeo, videojogos ou qualquer outro equipamento ligado ao televisor são controlados pelo audímetro.
Este aparelho electrónico regista automaticamente o estado dos televisores (ligado/desligado) e identifica a frequência sintonizada. Regista também a informação, ao longo do dia, de audiência para cada indivíduo residente no lar e guarda-a em memória. E como se identificam os residentes? A cada um dos membros do agregado familiar corresponde um botão diferente no telecomando, que só deve ser usado pelo seu "dono", e que no sistema informático está identificado pela idade. Cada residente declara, individualmente, a sua presença frente à TV. Os dados são enviados, durante a noite e através de um "modem", para a Marktest, onde são processados.
A amostra é estratificada por região, por estrato social e por posse de TV Cabo. Cada lar permanece no painel por um período não superior a 4 anos.
(Fonte: Marktest Audimetria)

TV portuguesas confiam no sistema nacional
Em Portugal, a medição de audiências televisivas assegurada pela Marktest Audimetria merece a confiança das televisões. Esta é a opinião de Bruno Santos, director do gabinete de estudos de mercado e audiências e também subdirector de programas da RTP, que disse ao PÚBLICO "não existir qualquer dúvida" face aos dados fornecidos pela Marktest. O sistema em vigor é, nas suas palavras, "perfeitamente fiável". "Todos os canais e principais clientes estão de acordo com os valores apresentados", garante.
(...)
O sistema tem, no entanto, limitações que afectam os canais da TV Cabo. O director de marketing e vendas da Sport TV, Vasco Perestrelo, afirma que o sistema de audimetria da Marktest para o cabo - Audicabo - "subestima claramente as audiências do canal". Perestrelo aponta como limitações o facto de a amostra do painel Audicabo ter um número insuficiente de lares com Sport TV e de não contemplar nem os mais de 50 mil estabelecimentos comerciais que são subscritores deste canal codificado, nem os cerca de 150 mil lares que o recebem via satélite.
Na sua opinião, o sistema também não reflecte o número de pessoas que assistem a determinado evento em cada lar e por isso não contabiliza o fenómeno de agrupamento que os eventos desportivos em geral - e os jogos de futebol em particular - suscitam. Situação que já foi reconhecida pelo próprio presidente da Marktest, Luís Queirós, em Julho passado, quando a empresa divulgou um estudo sobre a audiência da Sport TV.
Público, 13.5.2002

quinta-feira, maio 15, 2003

Dois livros na área de jornalismo serão lançados na próxima semana:

- "Foi Você que Pediu um Bom Título?", do jornalista e investigador Dinis Manuel Alves (um site de apresentação da obra pode ser consultado aqui).
A sessão de lançamento terá lugar na próxima segunda-feira, dia 19, pelas 18h30, na Casa Municipal da Cultura, em Coimbra. Intervirão Júlio Taborda Nogueira (que foi Professor Convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Manuel Pinto (Universidade do Minho) e Alberto Arons de Carvalho (Professor da Universidade Nova de Lisboa).
A obra, editada pela Quarteto, procura responder a perguntas como. "O que é um título jornalístico? Que funções desempenha? Que dificuldades encontramos na sua concepção? Como superá-las?".
Dinis Manuel Alves, licenciado em Jornalismo e em Direito pela Universidade de Coimbra, jornalista e investigador no campo dos media, "responde a estas e a muitas outras questões, num livro escrito em linguagem acessível, profusamente ilustrado, contendo vasta panóplia de exemplos referentes à arte e às técnicas de bem titular".
Atendendo à variedade e riqueza dos temas abordados, o trabalho agora publicado pode interessar a profissionais da comunicação, nomeadamente jornalistas, repórteres fotográficos, designers gráficos, bem como estudantes, professores, magistrados judiciais e cidadãos preocupados com a educação para os media.

- “Jornalismo e Literatura: Inimigos e Amantes ?” da escritora-jornalista Helena de Sousa Freitas.
O livro é prefaciado pelo jornalista e escritor Baptista-Bastos e será apresentado pelo escritor-jornalista José Viale Moutinho no próximo dia 22, quinta-feira, às 21h30, no Auditório da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim. A obra, editada pela Peregrinação Publications, procura "esclarecer a polémica relação entre jornalismo e literatura, e o que leva os profissionais de ambos os ofícios a partilharem estas duas realidades, e se isto beneficia ou prejudica quem os exerce".

quarta-feira, maio 14, 2003

I Encontro Nacional sobre Weblogs

Foi, finalmente, estabelecida a data e o local para este encontro sobre weblogs, sobre o qual há algum tempo se falava. Será em Braga, na nossa Universidade, em 18 e 19 de Setembro.
Se pretenderem inserir nos weblogs dos grupos o logo deste encontro, podem inserir no template a seguinte linha de código:

A HREF="http:\\www.encontrodeweblogs.blogspot.com"
IMG SRC="http://www.ics.uminho.pt/dcc/weblogobraga.gif"


E acrescentar o seguinte:
- o sinal < antes de A HREF
- ao sinal > depois de ...blogspot.com"
- o sinal < antes de IMG
- o sinal > depois de ...weblogbraga.gif"

terça-feira, maio 13, 2003

Mais um texto de Estrela Serrano, provedora do leitor do Diário de Notícias, que fica como um documento importante para compreender melhor as complexas relações entre jornalistas e fontes e entre os jornais e os seus leitores:

Dois pesos e duas medidas
Estrela Serrano
Diário de Notícias, 12.05.2003

Um dos factores que mais penalizam um jornal é ser desmentido publicamente. Por isso, os jornalistas oferecem, em geral, grande resistência à publicação de desmentidos e, quando o fazem, raramente lhes concedem relevo idêntico ao das notícias que lhes deram origem.

As pessoas e instituições que se sentem vítimas de notícias incorrectas optam, geralmente, por um processo mais informal que o «direito de resposta», dirigindo-se ao director do jornal para a devida correcção. O DN costuma publicar essas cartas na secção dos leitores Meu Caro DN, fazendo-as acompanhar de uma Nota da Redacção, onde quase sempre diz que «mantém a notícia» ou «a confiança nas fontes», raramente dando razão aos leitores.

Contudo, nem sempre isso sucede. Vejamos um caso e comparemo-lo com outro.

No passado dia 28 de Fevereiro, o DN publicou, nas páginas de Opinião, um texto do bastonário da Ordem dos Advogados intitulado Aviso à navegação. Não se tratava, porém, de um mero artigo de opinião. Era, antes, um texto em que o bastonário desmentia nada mais que três manchetes e um artigo envolvendo a instituição a que preside, publicados no DN no espaço de duas semanas. Estava-se, então, em plena discussão do «segredo de justiça», a propósito dos casos de pedofilia que, nessa altura, dominavam o noticiário nacional.

Nesse texto, de página inteira, o bastonário pedia «acolhimento» aos seus «amigos do DN», para «dar alguns esclarecimentos», uma vez que, segundo dizia, o DN publicara «informações importantes» mas «algumas delas não totalmente correctas». Após contrariar essas informações, o bastonário concluía que jornais «respeitados e credíveis como o DN» acabam por «ser vítimas da sua boa-fé ao acreditarem em 'fontes' que se escondem rastejando em gabinetes de manipulação» e lembrava que «ornais e jornalistas sérios não revelam as suas 'fontes', mas sabem aprender à sua custa e provavelmente não voltarão a acreditar nelas».

Apesar da gravidade da situação _ é inaceitável que, num jornal de referência, tantas notícias sejam desmentidas num período tão curto _ não houve, nesse dia nem nos seguintes, qualquer reacção do DN, quer da direcção, quer dos autores das notícias em causa. A provedora pediu ao director do jornal uma reacção ao sucedido, tendo obtido o seguinte comentário: «Todas as críticas construtivas _ como é o caso da que faz o dr. José Miguel Júdice _ merecem ser ponderadas. É óbvio que procuramos que cada erro seja uma lição de futuro.»

Independentemente do conteúdo das notícias que provocaram a reacção do bastonário, este caso permite duas constatações: em primeiro lugar, constitui um tratamento de excepção publicar um desmentido (como era de facto, o texto do bastonário) com o formato de artigo de opinião (e não na secção de cartas para onde vai a maior parte dos desmentidos). Em segundo lugar, ao contrário do que costuma fazer, o DN manteve-se publicamente em silêncio, só agora admitindo que se tratou de «erro».

O DN não quis, pois, pôr em causa a versão do bastonário _ uma fonte de indiscutível importância _ o que poderia acontecer se afirmasse que mantinha as notícias que ele corrigiu. Mas, por outro lado, também não assumiu publicamente, nessa altura, ter sido «manipulado» pelas «fontes» (não identificadas) que lhe forneceram as informações (pelos vistos, falsas), o que se compreende.

É, contudo, ao nível da transparência perante os leitores que a atitude do DN surge como mais frágil. De facto, os leitores ficaram sem perceber como foi possível publicar, para mais como tema de capa, uma série de notícias que depois reconhece terem resultado de «erro». Um esclarecimento ter-se-ia imposto.

Vale a pena comparar, agora, a atitude do DN neste caso e noutro mais recente mas menos mediático.

No passado dia 30 de Abril, a manchete do DN dizia: Suspeita de corrupção no turismo algarvio. No interior, citando «fonte ligada ao processo», o jornal afirmava que «o financiamento de campanhas eleitorais do PS poderá ser uma das causas das investigações efectuadas» pela Polícia Judiciária.

No dia seguinte, na secção de cartas dos leitores, surgia um desmentido assinado pelo «responsável do PS/Algarve». Desta vez, uma Nota de Redacção com a frase «O DN mantém as afirmações feitas na notícia» acompanhava a carta daquele «responsável».

Estes casos são paradigmáticos, por mostrarem como na relação entre fontes e jornalistas se usam, por vezes, dois pesos e duas medidas.

No primeiro caso, o DN considerou que ambas as fontes (o bastonário e as fontes não identificadas) eram demasiado «valiosas» para serem publicamente afrontadas. No último, só as de um lado interessaram ao DN, por sinal as não identificadas, o que significa que entre a palavra de um dirigente partidário pouco conhecido, de uma estrutura regional, e uma fonte que escolheu o anonimato, o DN acreditou nesta. É caso para dizer que a credibilidade da «classe política» anda, de facto, muito por baixo.



Bloco-Notas

UMA VELHA QUESTÂO

Existe uma velha questão do jornalismo, que consiste em saber «quem instrumentaliza quem». Os jornalistas dificilmente reconhecem ser objecto de instrumentalização, embora saibam que uma fonte é sempre parte interessada. Mas, como não há jornalismo sem fontes, ambas as partes procuram conciliar os seus interesses, de modo a que os objectivos de cada uma possam ser acautelados. Sendo certo que uma das «qualidades» mais apreciadas num jornalista é a sua «carteira de contactos», facilmente se compreende que só excepcionalmente ele queira colocar em risco a sua relação com fontes «bem colocadas». É, por outro lado, um dado inquestionável que, por detrás de uma «grande» notícia está sempre uma fonte «bem informada». O caso mais paradigmático do jornalismo de investigação _ o Watergate _ não teria existido sem o «Garganta Funda», embora não deva menosprezar-se o trabalho dos jornalistas que, nesse e noutros casos, souberam chegar a tais fontes e levá-las a confiar em si.

ELEMENTOS EM DESUSO

As teorias da notícia dizem que a identificação e a contrastação das fontes constituem atributos de rigor e de objectividade. Contudo, basta ler as notícias, por exemplo da política, ou da justiça, para verificar como esses atributos caíram em desuso. De facto, no jornalismo praticado actualmente, as fontes são quase sempre omitidas, mesmo quando as afirmações que lhes são atribuídas surgem com aspas. Mas, também noutras áreas é frequente a omissão da origem da informação como, por exemplo, em relação às fontes em que se baseiam certos «perfis» de personalidades internacionais apresentadas nos jornais, muito embora se trate de um tipo de informação que, geralmente, não provoca polémica.

UM BOM EXEMPLO

Vale a pena referir, a esse propósito, a atitude do jornalista Pedro Rolo Duarte, director do DNa, na sua crónica de 26 de Abril, ao escrever, a propósito das referências à autora da fotografia da capa da revista The New Yorker, Ana Juan: «Eu sei tudo isto, porque existe a Internet, não é cultura adquirida, é cultura alugada pela curiosidade de quem se impressiona com esta capa de revista...» A citação da origem da informação devia constituir um procedimento natural, mas, como se tornou rara, merece referência.

TERRA DE NINGUÉM

Existem várias razões susceptíveis de explicar a prática, crescente, de citar e divulgar informação cuja origem se omite. Uma delas é o recurso, cada vez mais frequente, à Internet _ que se tornou uma espécie de «terra de ninguém» _ onde se vai buscar informação sem o cuidado de citar a autoria e a «morada» onde se pode consultar. Essa prática é, por exemplo, fortemente punida nos meios académicos, não se compreendendo que os jornalistas ignorem o dever de citar as fontes que consultam, quer para notícias «sérias», quer para notícias «leves».

domingo, maio 11, 2003

Miguel Sousa Tavares (MST) escreveu um texto intitulado O Massacre do Jornalismo, no "Público" de sexta-feira, que não poderia deixar de ficar aqui registado. Todos conhecemos a veemência e contundência da escrita de MST. Provavelmente o quadro traçado tem as tintas bastante carregadas. Mas permite ter uma perspectiva e uma leitura da situação presente que pode ser vista como um desafio a futuras gerações de jornalistas. Para que algo mude, é necessário que, primeiro haja consciência desse algo. Possa a reflexão de MST ser uma cahega nesse sentido.
Pela importância do documento, aqui fica ele transcrito, para eventuais reacções e comentários nos weblogs de grupo.

O Massacre do Jornalismo
Miguel Sousa Tavares

Há 25 anos atrás (meu Deus!), quando eu cheguei ao jornalismo, estava tudo por reinventar. Uma geração inteira de jornalistas treinados na mordaça e na censura viram chegar uma nova geração de jornalistas que tinham o privilégio de iniciar a sua profissão em liberdade e para um público sedento de jornalismo livre e diferente. Comecei por um péssimo jornal ("A Luta"), dirigido por um jornalista que fora sempre da oposição, embora em tudo o resto fosse um verdadeiro jornalista do antigamente: Raul Rego. Para me defender daquilo que era uma secção nacional engajada politicamente no apoio ao Partido Socialista e no qual eu não queria colaborar, não por razões políticas, mas sim jornalísticas, candidatei-me à secção internacional, onde tive a sorte de encontrar um chefe que vinha de Paris e da imprensa estrangeira e que não quis saber se eu tinha carteira do PS, mas apenas se era competente. Fiz aí o meu estágio - de dois anos, como ordenava o estatuto do jornalista - ao abrigo da manipulação e dos fretes partidários que então caracterizavam o panorama jornalístico do país. Quando me mudei para a minha segunda redacção, confirmei o que era a imensa incompetência e impreparação da classe jornalística disponível: nas secções internacionais era banal que nenhum jornalista falasse inglês, que nenhum soubesse como funcionavam as Nações Unidas ou o Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, que nenhum tivesse lido a "Bíblia" que era então a "História Dilplomática do Século XX", do Duverger, ou qualquer coisa de próximo. Limitavam-se a reproduzir os telexes traduzidos pela Lusa e missão cumprida.

Poucos anos mais tarde, por circunstâncias ocasionais, encontrei-me integrado numa comissão governamental destinada a criar o primeiro curso universitário de jornalismo e a definir o seu plano de estudos. A comissão era presidida por um ilustre representante do jornalismo da velha guarda, o qual dormiu sumptuosamente desde a primeira até à última sessão de trabalhos e no final foi condecorado no 10 de Junho. Durante o seu eterno sono, os outros ilustres membros, todos "jornalistas consagrados", trataram de se apoderar da coisa e produzir um relatório final onde o curso tinha a duração de quatro anos, de modo a que quem o frequentasse pudesse ser tratado por "dr." e onde se iriam aprender coisas tão importantes como a semântica da entrevista ou a sociologia da reportagem. Fui arrasado por toda a comissão quando me atrevi a apresentar um plano de estudos que previa cadeiras como Português, Inglês, Redacção, Televisão, Noções Elementares de Economia, Direito e História Diplomática. Hoje, a maioria dos membros dessa longínqua comissão são doutorados em Jornalismo e exercem por aí a respectiva docência. Do resultado do seu saber e da sua docência resultou uma segunda geração de jornalistas que saíram cá para fora todos licenciados, todos íntimos dos teóricos do jornalismo em voga e todos, com raras excepções, notavelmente impreparados e incompetentes para a função. Vivi, já como editor, casos verdadeiramente anedóticos com esses "doutores jornalistas".

Depois disso, o jornalismo tornou-se uma moda e o seu ensino um negócio rentável. Uma profissão que requer uma vocação própria e um espírito de missão e de serviço transformou-se numa escolha universitária por exclusão de partes e num trabalho sonhado para impressionar a família, os amigos ou os colegas de café. No meio disso e da confusão instalada, perderam-se muitas vezes os verdadeiros casos de talento e de competência. Mas, apesar de tudo, essa segunda fornada de jornalistas formados em liberdade tinha uma vantagem: havia normalmente quem, nas redacções, os ensinasse e corrigisse. Quem lhes transmitisse o entusiasmo, o sentido de missão e o orgulho num trabalho limpo e bem feito.

Hoje, perante a terceira geração de jornalistas pós-25 de Abril, o panorama é triste e devastador. Num mercado, audiovisual ou da imprensa, de concorrência letal e receitas escassas, os proprietários, com raríssimas excepções, esqueceram tudo o que tinham prometido de boas intenções, bons princípios e dessa destrinça subtil, porém decisiva, entre o que é o interesse público e o que é o interesse do público. Essa função tão nobre e determinante numa sociedade democrática que é a do "publisher" está hoje, entre nós, resumida ao desígnio de sobreviver e ter lucros, seja a que preço for.

Abaixo dos proprietários e recebendo deles pressões constantes e ameaçadoras, está a camada de editores que são os verdadeiros responsáveis por tudo o que se faz e publica. São "a voz do dono", totalmente submissa ao que manda o proprietário, ao que transmite o departamento de audiências e ao que recomenda o departamento comercial. Da antiga paixão pelo jornalismo já nada lhes resta, senão o cansaço. Do antigo orgulho no espírito ético da profissão, resta-lhes o cinismo com que olham para tudo e decidem, sem um estremecimento de pudor, que "esta notícia vende, aquela não vende".

Abaixo dos editores, está a terceira geração de jornalistas de depois da censura - os jovens jornalistas de agora. É de longe a mais reprimida, a mais abusada e a mais desiludida geração de jornalistas de sempre, incluindo as do tempo da ditadura. São censurados todos os dias, não por um coronel da Censura, mas pelo seu editor sentado na mesa ao lado. Os seus textos são manipulados, virados do avesso, reescritos em busca do grão de escândalo que possa ser puxado para título e atrair as atenções e as vendas. São obrigados a prestarem-se a funções indignas, como as de vigiarem as casas dos "colunáveis", espiarem-lhes os casamentos, os enterros, a sua vida privada; perseguirem as mulheres e os filhos dos suspeitos presos pela justiça e arrancar-lhes uma lágrima, um estremecimento de terror, um reflexo de animais acossados; erigirem-se em juízes e decretarem condenações públicas sem audição dos acusados; recorrerem a fontes anónimas, de cara tapada e voz distorcida, aliciadas de todas as formas e feitios, incluindo ofertas de dinheiro; fazerem notícias sem substância, nem conteúdo, apenas na base da insinuação de que "não aconteceu, mas quem sabe se não poderia ter acontecido?". Nas redacções nenhum editor, supondo que seria capaz, lhes ensina coisa alguma sobre jornalismo: como deve ser investigada uma notícia, como deve ser redigida, como deve ser feito um título. Porque já não é de jornalismo que se trata, mas de simples compra e venda de títulos e de supostas notícias. E eles já não são tratados como jornalistas, mas como mercenários, merceeiros da informação. Se porventura têm a coragem de resistir e recusar, é-lhes respondido que há muitos candidatos para o seu lugar e são encostados à parede e ostracizados e humilhados até ao ponto em que já não aguentem mais e prefiram o desemprego.

Tudo o que esta profissão tinha de apaixonante, de reconfortante e de compensação ao mérito e ao talento desapareceu por completo, salvo honrosas excepções, de que este jornal é, felizmente, uma delas. (E quem me conhece sabe bem que digo isto com inteira sinceridade e liberdade: assim como, por razões estritamente minhas e de trabalho, me afastei daqui um ano e meio, assim sairia no dia em que o PÚBLICO caísse nas mãos de simples merceeiros do jornalismo.)

Tive a sorte de viver um tempo de ouro no jornalismo português, um tempo fundador. Talvez por isso sinto uma infinita revolta quando vejo uma geração inteira de novos jornalistas a quem todos os sonhos, todas as ilusões e toda a dignidade foi roubada. E não são apenas eles a pagarem as consequências: todos nós, na qualidade da informação e da democracia que temos, iremos pagar por isso.

in PÚBLICO, 9 de Maio de 2003

quinta-feira, maio 08, 2003

Fontes a consultar para a escrita jornalística
(NB: Não há um código universalmente válido, como se pode verificar, consultando fontes de diversa proveniência; deve prevalecer sempre a clareza, a concisão e a pertinência, tendo presentes os destinatários- características que têm bastante que ver com um certo nível de mestria no uso da língua. Importante é, igualmente, a escolha do ângulo e a lógica textual em que se inscrevem os elementos noticiosos dentro de uma mesma peça. Tudo isto pressupõe uma aguda percepção - que se pode ir apurando - daquilo que é notícia).
- Livro de Estilo do "Público"
- Manual de Redacção da "Folha de São Paulo"
- Colunas dos provedores do leitor
- Livros publicados com as crónicas dos mesmos provedores
- Documentos on-line:
*News Writer's Handbook
*Practical Teaching Ideas on Journalism
*News leads, por Sandra Wilson
*Écrire son papier, H. Montant.

Na escrita jornalística há, com frequência, a necessidade de citar fontes, de recorrer à atribuição de discursos. A língua portuguesa é especialmente rica nas acepções do verbo DIZER, introduzindo modulações e cambiantes que tornam a escrita mais rigorosa e mais elegante. Deixo algumas pistas:

Equivalentes de dizer


Equivalentes gerais: declarar, afirmar, considerar
Confirmação: confirmar, reafirmar, reiterar, insistir
Dar pistas ou indicações: sugerir, apontar, indicar
Pôr ênfase: destacar, salientar, sublinhar
Apontar algo no futuro : anunciar, adiantar, avisar, prevenir
Negação: negar, recusar, desmentir, refutar
Defesa de um ponto de vista: defender, alegar, preconizar
Descrição de eventos: relatar, contar
Adução de argumentos ou dados : acrescentar, enumerar, explicar
Desocultação: revelar, descobrir, esclarecer
Tornar presente o passado: recordar, (re)lembrar

Alguns exemplos:
· A situação das contas públicas é gravíssima" (...), defendeu hoje a ministra das Finanças.
· "Eu deixo-as falar(...)", desabafa uma das mães.
· "Levo algumas ideias para poder sobreviver a algumas guerras", remata uma das mulheres.
· "Não estamos aqui para dizer como é ser mãe", esclarece de imediato Cristina Barbosa
· No fundo, a ideia é "dar poder às mães para elas próprias aprenderem a resolver os seus problemas", sustenta Maria José, psicóloga.

quarta-feira, maio 07, 2003

Joaquim Fidalgo refere, na sua coluna semanal no Público, e ainda a propósito do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, evocado no sábado passado, um exercício interessante feito no programa Revista de Imprensa, da NTV, no qual ele próprio participa: "olhar para as notícias publicadas nos jornais daquele dia e imaginar quantas sobreviveriam se vivêssemos, como já vivemos, num regime de censura prévia".
Depois de comprovar, com o caso do JN, que a primeira página desse dia praticamente desapareceria, comenta:
"De tanto e tão saudavelmente convivermos com a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, as mais das vezes já nem nos apercebemos de como elas são preciosas e de como fazem a diferença entre viver em democracia ou viver em ditadura. Não resolve todos os problemas, é claro, nem a existência das liberdades formais garante, por si só, o seu exercício efectivo, pleno e igual (ou não muito desigual...) por parte de todos os cidadãos. A inexistência de censura política não assegura também, por si só, o fim de todas as formas indirectas ou veladas de pequenas e médias censuras, entre elas esse perigo enorme e tão palpável de formas de autocensura em que podemos refugiar-nos só "para não criar problemas". Ainda assim, esse bem enorme de podermos dizer o que pensamos e saber o mais possível do que se passa à nossa volta, longe daquelas paisagens bucólicas tão artificiais do "reina a calma em todo o país", tem um valor inestimável que faz bem, uma vez por outra, tornarmos bem presente e bem consciente".

domingo, maio 04, 2003

A aula de terça-feira, dia 6, terá a presença de um convidado especial: o jornalista Elmano Madaíl, que acaba de chegar de Bagdade, onde esteve como enviado especial do Jornal de Notícias. Vai conversar connosco sobre as questões relacionadas com a cobertura da guerra no Iraque. Elmando Madaíl é o responsável pela Delegação de Braga do JN, está a elaborar uma tese de mestrado em Jornalismo na UM e é um dos bloggers do Jornalismo & Comunicação.

Faz hoje dez anos que foi aprovado o Código Deontológico que ainda hoje se encontra em vigor. Vale a pena relê-lo. O link para os dez pontos que o constituem encontra-se nesta página, do lado esquerdo, ao fundo. O Código Deontológico foi aprovado em 4 de Maio de 1993, numa consulta que abrangeu todos os profissionais detentores de Carteira Profissional. O texto do projecto havia sido preliminarmente discutido e aprovado em Assembleia Geral realizada em 22 de Março de 1993.

Uma actividade que ficou pendente na última aula: cada aluno deverá ler o texto recente "Statement on the Future of Journalism Education", do Presidente da Universidade de Columbia
(que acolhe a Graduate School of Journalism). Após a leitura deverá redigir uma notícia com o máximo de dois mil caracteres, que apresente o essencial do artigo. A publicação deverá ter lugar no weblog. Se este não existir, deverá ser entregue em suporte papel.