segunda-feira, abril 03, 2006

O factor "jornalismo" na análise da crise da Imprensa

apctUm dos factos badalados na última semana foi certamente o teor dos dados sobre tiragens e circulação dos meios impressos relativos a 2005, divulgados pela APCT (Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens e Circulação). O panorama geral de crise, sobretudo entre os jornais diários pagos, levou a uma série de comentários sobre as razões subjacentes à crise e acerca das vias para a superar. Não foram muitas as vozes que chamaram a atenção para um ponto que parece ser básico: qual o contributo que pode dar o próprio jornalismo, nas estratégias de enfrentamento da crise? O seguinte texto, da autoria de Miguel Gaspar, editor executivo do DN e ex-editor da secção de Media do mesmo jornal, insiste precisamente nesse ponto:

"E que tal vender uns jornalitos?

Pelos vistos, tudo corre mal no mundo dos jornais. Os números de 2005 mostram uma quebra do sector, com excepção, claro, dos diários gratuitos. Críticas oriundas de vários azimutes (Pacheco Pereira, Baptista Bastos, Vicente Jorge Silva) apontam para uma degradação do jornalismo escrito, radiofónico ou televisivo. A imprensa anda presa entre dois fogos - a falta de leitores e a incapacidade em legitimar o seu papel. O problema é que a imprensa, em particular a escrita, continua a fazer falta. Haverá uma porta de saída?

Estou a pensar no problema a partir de dentro e não de fora. Isso faz alguma diferença. O problema da circulação dos jornais não é novo. Agravou-se agora por várias razões, à cabeça das quais estão a crise económica, por um lado, e a concorrência da televisão e das novas tecnologias, por outro.

A crise faz com que a decisão de comprar um jornal deixe de ser automática ou rotineira e passe a ser reflectida. O êxito dos gratuitos está aí para provar o peso deste factor.

As novas tecnologias acentuaram a indiferença dos escalões mais jovens em relação aos jornais. Mas o mais complicado não é isso. O paradigma do "espectador dos media" está a mudar e passa hoje pelo cruzamento permanente da televisão e da rádio com a Internet. O papel não pode ignorar essa realidade.

O futuro é simplesmente isto: os jornais passarão a existir como marcas desmaterializadas, que podem multiplicar-se em outros suportes, como a televisão ou a Internet. Também não é novidade, há dez anos que se fala nisto. O problema está na dificuldade das empresas em construir estratégias neste sentido. E a Internet vai mudar a própria televisão, reduzindo as estações generalistas a um papel semelhante ao que hoje têm as rádios para todos os públicos.

E, então, quanto à qualidade? Diz que anda aí uma procura desenfreada do lucro e das audiências. Eu rio--me. Toda a gente que comunica quer chegar a mais pessoas, é normal que os jornais e as televisões queiram vender. O problema é o como, naturalmente, mas isso não significa que querer vender seja mau. Muito mais complicado são os constrangimentos económicos que obrigam à contenção de custos nas empresas de media, com custos óbvios na qualidade da oferta, informativa ou outra.

Sobra um problema. Hoje temos uma enorme dificuldade em pensar o jornalismo. Sobretudo em pensá- -lo em função das expectativas dos leitores e não apenas dos códigos e preconceitos de quem reporta. Os jornais vendem menos por se terem afastado das pessoas. Somos prisioneiros das nossas ilusões em relação ao que os leitores realmente querem. Não é necessariamente sangue...

Ainda nos imaginamos como os donos da mensagem e os donos da objectividade. Não tenho soluções para problemas tão complexos. Mas começar por ouvir os leitores parece-me um caminho razoável".

Leituras complementares:
- A crise da Imprensa escrita urbi et orbi, no Abrupto (incluindo os comentários).
- O texto If Newspapers Are to Rise Again, de Tim Porter, no último número dos Nieman Reports (via Ponto Media).
- Some Frequently Asked Questions about Newspapers in Education (NIE)
-
The Next Big Things for Newspapers: Podcast, Vodcast , de Steve Outing
-
Extra! Extra! The future of newspapers, de Michael Kinsley
-
New News: Deconstructing the newspaper, de Jeff Jarvis
-
Debating the Future of Newspapers, de Tim Porter.

1 Comments:

At 12:24 p.m., Blogger Obseervador said...

Um texto muito bem escrito, sim senhor.
Pois é.
Também eu gostaria de comentar temas do mundo corrente num periódico..., mas fico-me pela internet.
Não hà mercado para o Internacional, o tema por que mais me interesso.
Fiquei espantado com as tiragens do público.
Este diário é um jornal de qualidade..., mas as tiragens caiem .
Está nos 40 mil.
As novas gerações viram-se para a internet..., os blogues..,e deixam de comprar o jornal escrito em papel.
Esta afirmação não explica a totalidade do fenômeno, porém.
O Sun continua a vender.
As pessoas gostam de ver fofoca, crime e sexo.
Parabéns pelo texto que escreveu.

 

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