domingo, março 11, 2007

“Porque estudamos o jornalismo”

Estudamos o jornalismo:

1. - Por ser um campo complexo, estreitamente relacionado com os processos sociais e culturais e decisivo para a compreensão do presente e para a construção de uma memória plural da vida pública

2. - Por ser um campo que vive uma crise de identidade, com a adulteração de alguns dos seus valores constitutivos (através da mercantilização, o sensacionalismo e o infotainment), a diluição / decomposição do estatuto dos seus profissionais, a derrapagem de comportamentos no plano
deontológico, a disputa da função por parte de novos actores

3. - Porque o jornalismo é uma
disciplina exigente de procura, filtragem, verificação, contextualização das matérias consideradas de relevância pública, que exige competências não apenas técnico-profissionais, mas, sobretudo, culturais.

4. - Porque a tecnologia está a induzir novas possibilidades no triângulo fontes-jornalistas-públicos, que obrigam a mudar práticas e a redefinir papeis.

5. - Porque a mesma tecnologia tem possibilitado a emergência de novas linguagens, novos formatos e mesmo novos géneros, proporcionando modos radicalmente diversos de contar histórias sobre a actualidade.

6. - Porque o avolumar de mensagens, de dados, de vozes e de propostas corre o risco de tornar o trabalho jornalístico em mais um discurso, remetido à periferia de uma centralidade perdida e ora ocupada por novos discursos, mas nem por isso menos relevante para atribuir sentido ao magma informe da informação, através de propostas editoriais diversificadas

7. - Porque as antinomias em que frequentemente se refugiam os defensores e os opositores do statu quo (informação/entretenimento, interesse público / interesse do público, popular / de qualidade, sério /divertido…) parecem termos de referência e de enunciação insuficientes para dar conta dos desafios com que nos defrontamos.

8. - Porque temos, particularmente em Portugal, uma trajectória recente e longe de estar consolidada de estudos académicos de jornalismo, relativamente à qual nos vemos ainda enredados em equívocos e contraposições pouco relevantes (sobre se o jornalismo se aprende na universidade ou na tarimba, sobre se deve ser uma formação específica em jornalismo ou noutra qualquer área do saber, sobre se deve revestir características predominantemente técnicas ou, antes, de instrumentação teórico-metodológica e cultural).

9. - Porque estamos confrontados com uma antinomia mais funda entre um jornalismo de difusão, autoritário, porque assimétrico quanto às relações de poder, e, por outro lado, um mais reivindicado e sonhado do que praticado jornalismo participativo, feito por qualquer um, em pequenas redes sociais emergentes.

10. - Porque, finalmente, o exercício da cidadania face ao jornalismo e às instituições que o produzem constitui ainda um enorme deserto, povoado por ignorâncias dos deveres e direitos básicos e iliteracia que não só inibe uma leitura esclarecida e crítica da informação, como não estimula a intervenção e a tomada da palavra no espaço público.

(Texto apresentado nas II Jornadas Internacionais de Jornalismo, realizadas na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, em 2 de Março de 2007)