domingo, outubro 09, 2005

3º ano / Ramalho e Eça sobre o jornalismo

Ramalho e Eça sobre o jornalismo na 2ª metade do séc.XIX
in AS FARPAS-CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES, Outubro a Novembro de 1873
(texto de apoio)

"A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico,pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seuclub, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, noscorredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, noGremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;--é o termo technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve hoje--notae-o bem--é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso efiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não atempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centrospublicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio, é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente--o cano.

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Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda atransgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. Oleitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio ésubstituido pelo _mot d'ordre_."

RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ