quarta-feira, março 03, 2004

O que escolhemos celebrar nos aniversários

O que escolhemos celebrar nos aniversários

Vai já tarde (para o tempo bloguístico) este post, mas ainda assim arrisco.
O Diário de Notícias de domingo passado trazia, a título gratuito, um CD intitulado "TSF-16 anos: os sons da nossa história". Os que se interessam pelo mundo radiofónico e que, por alguma razão, andam mais distraídos poderão, certamente, ainda encontrar um exemplar num qualquer quiosque.
Aconselho vivamente a busca e a escuta atenta. Os que sentem uma ligação muito especial ao universo da rádio vão, concerteza, ter acesso a um ou dois momentos especiais (por exemplo, a faixa 59...poema e voz de Fernando Alves).
Creio, porém, que não pode passar este momento - os 16 anos de uma das rádios que mais influenciou a forma de fazer jornalismo radiofónico em Portugal - sem um olhar mais atento ao conteúdo do CD. Ou, se preferirem, ao que deliberadamente foi deixado de fora (e apoio-me, aqui, na espirituosa prosa do nosso Joaquim Fidalgo no Público de hoje sobre a moda recente das "não-qualquer-coisas").
O que os mais atentos encontrarão no CD é um bem conseguido, bem trabalhado e bem fundamentado (com exemplos de qualidade) instrumento de validação de uma certa TSF - a TSF do início, misto de vontade esfusiante de um grupo de jovens talentosos e da ambição mergulhada em vícios de forma e estilo de uma outra geração, mais experiente. Essa foi, de facto, uma receita de sucesso no arranque, porque era inovadora no panorama radiofónico português (trazia-se cor, emoção e um empenho no rigor ao mundo da informação). Mas o tempo passou e a rádio portuguesa, no seu todo, cresceu. Amadureceram os ouvintes e amadureceram as rádios. E a TSF não foi estranha a esse processo. Até há bem pouco tempo, sob a liderança e acompanhamento ponderado de pessoas como o Carlos Andrade, o António José Teixeira ou o Manuel Villas Boas, percebia-se que a TSF estava mais crescida, aproveitando o que de bom lhe tinha trazido esse passado mas apostando em novas ideias, em novas interpretações do espaço da rádio neste novo século. A TSF tinha, até, dado o singular passo (em Portugal) de encomendar a um músico de reconhecido mérito uma identidade sonora para toda a estaçao. No ano passado, tudo mudou. Sob a liderança efectiva de Emídio Rangel a TSF arrepiou caminho e voltou a apostar nas receitas do início, em muito casos com os mesmos (amigos) intérpretes. Só que Portugal mudou e o produto inovador do fim da década de 80 não pode deixar de ser desenquadrado em 2004.
O que o CD comemorativo deixa deliberadamente de fora é grande parte do percurso e dos intérpretes do crescimento da TSF. Pacheco Pereira tem razão ao falar do Flashback e seria muito fácil juntar a essa referência a falta que lá fazem espaços verdadeiramente originais como, para citar apenas dois exemplos, o "Ouvir e Verão" ou o inegualável "Som dos Pedais".
O que a TSF do Sr. Emídio decidiu fazer não é honesto. O que a TSF do Sr. Emídio nos apresenta não é, nem de longe, uma imagem equilibrada do que foi aquela rádio nestes 16 anos. O que a TSF do Sr. Emídio agora nos propõe não é o reconhecimento justo do empenho, dedicação e - em muitos casos - talento criativo de tantos profissionais que por lá passaram ou que ainda lá trabalham.
Se o critério de selecção tivesse sido outro que não o resultante de um misto de auto-justificação e de ajuste de contas nem sequer teria sido preciso fazer mais do que este - um só - CD.