quarta-feira, dezembro 15, 2004

O Sigilo Foi Preso

Pela sua importância, transcrevo o texto que Joaquim Fidalgo escreveu para o Público de hoje:

"Era uma história contada na minha infância católica. Pretendia sublinhar o alcance e gravidade do "segredo da confissão": podíamos dizer ao padre o que quiséssemos, pois ele guardaria tudo muito bem guardado e a ninguém contaria o que lhe confessássemos da nossa intimidade.
Falava a história de um indivíduo condenado à morte e prestes a ser executado. Em vésperas da execução, um outro indivíduo foi confessar-se ao padre da terra e disse-lhe qualquer coisa como isto: "Eu sei que Fulano está inocente. Eu sei que ele não cometeu o crime, pois quem o cometeu fui eu..."
Dilema terrível para o padre: desrespeitar o sagrado dever de sigilo em relação a tudo quanto ouve no confessionário, ou deixar executar um inocente?... Se bem me lembro, a história acabava com jeito, ou seja, com a salvação do inocente. Porque acima desse valioso "bem" que é o da confiança no segredo do confessor, impunha-se um "bem maior" (e maior haverá?...) que era salvar uma vida humana.
Esta semana, tivemos cá pela terra uma situação que também bulia com o sigilo profissional, no caso não de um padre, mas de um jornalista. E em causa não estava salvar uma pessoa da execução, mas ajudar a polícia numas investigações. A história acabou sem jeito: o jornalista recusou-se a revelar a fonte que, sob garantia de confidencialidade, lhe dera uma determinada informação, e o tribunal acusou-o de não colaborar com a justiça, condenando-o.
Os dois casos não são comparáveis em muitos aspectos. Só recordei o primeiro para elucidar este ponto específico: também nenhum jornalista nega que, em circunstâncias absolutamente excepcionais, pode ser necessário quebrar o vínculo de confiança com uma fonte e revelar o seu nome; mas fazê-lo em casos menos excepcionais (como era o presente) acarreta um prejuízo tremendo, não só aos jornalistas como, sobretudo, à sociedade. Aos cidadãos. A nós.
Tratar o sigilo profissional dos jornalistas como um privilégio que lhes permite, com impunidade, pôr na boca de "fontes não identificadas" tudo o que lhes apeteça, é ver muito pouco. Pode haver abusos, claro. Mas, na sua essência, o sigilo profissional não é um privilégio; é um dever, um pesado dever, que pode mesmo levar um jornalista a ser condenado em tribunal e a ir parar à prisão. É, afinal, o preço a pagar para que as pessoas saibam que podem continuar a denunciar um abuso, a expor uma malfeitoria, a indicar um caso de corrupção, com a certeza de que o jornalista junto de quem o façam preservará a sua confidencialidade. Custe o que custar.
Uma lei dá ao jornalista o direito ao sigilo, outra lei retira-lhe esse direito. A ética não dá nem tira: apenas lhe aponta a responsabilidade indeclinável de não defraudar a confiança das pessoas que precisam do trabalho dos "media" para o exercício quotidiano da liberdade de expressão e para o escrutínio dos poderes públicos. Por isso, quando um jornalista é condenado em tribunal por se ter mantido fiel aos princípios éticos e ao código deontológico da profissão, não é só ele que perde; perdemos nós todos".

domingo, dezembro 12, 2004

Objectividade II

A ler: Em Louvor da Santa Objectividade, de Mário Mesquita. Diz ele (e desenvolve, no texto):
"Creio que podemos situar a doutrina da «objectividade» a três níveis:
  • no plano deontológico enquanto «dever» ou «compromisso ético», prescrito pelos códigos deontológicos;
  • no plano da investigação jornalística, enquanto conjunto de normas processuais;
  • no plano das retóricas, enquanto conjunto de regras de natureza estilística".

sábado, dezembro 11, 2004

Objectividade I

The Parable of the Blind Men and the Elephant
John Godfrey Saxe

It was six men of Indostan
To learning much inclined,
Who went to see the Elephant
Though all of them were blind,
That each by observation
Might satisfy his mind.

The First approached the Elephant
And, happening to fall
Against his broad and sturdy side,
At once began to bawl:
"God bless me, but the Elephant
Is very like a wall!"

The Second, feeling the tusk,
Cried, "Ho! what have we here
So very round and smooth and sharp?
To me 'tis very clear
This wonder of an Elephant
Is very like a spear!" (lança)

The Third approached the animal
And, happening to take
The squirming trunk within his hands,
Thus boldly up he spake:
"I see," quoth he, "The Elephant
Is very like a snake!"

The Fourth reached out an eager hand,
And felt about the knee:
"What most the wondrous beast is like
Is very plain," quoth he;
"Tis clear enough the Elephant
Is very like a tree!"

The Fifth, who chanced to touch the ear,
Said, "Even the blindest man
Can tell what this resembles most;
Deny the fact who can:
This marvel of an elephant
Is very like a fan!" (leque)

The Sixth no sooner had begun
About the beast to grope
Than, seizing on the swinging tail
That fell within his scope,
"I see," quoth he, "the Elephant
Is very like a rope!" (corda)

And so these men of Indostan
Disputed loud and long,
Each in his own opinion
Exceeding stiff and strong.
Though each was partly in the right, They all were in the wrong!